Mini Crônicas do Pai Poeta
-A PÉROLA DO AMOR-
Eu e minha amada convidamos o Amor para jantar. Era uma quinta-feira chuvosa, e ele chegou às oito em ponto. Era alto, loiro, de cabelos encaracolados, sempre com um sorriso no rosto.
— Forte. Era forte... — ela me lembrou.
Eu disse:
— Era alegre também.
Ela concordou...
Sentamos à mesa redonda da sala, em uma luz quase em penumbra. Ele — o Amor — permanecia calado, olhava para nós, para a casa, para a sala ao redor. Parecia medieval na aparência, mas sua fala era moderna.
O prato principal era frango assado com creme de espinafre.
— Sirva nosso convidado — ela disse com uma linguagem amável.
O Amor sorriu um pouco mais do que já sorria e disse calmamente:
— Obrigado, eu não como esta comida.
Nós nos entreolhamos, perplexos, sem saber o que dizer.
Ele disse:
— Eu só como pérolas de amor.
Num átimo, eu disse:
— Não tenho dinheiro para comprar esse alimento. Aqui as pérolas são caríssimas...
Então o Amor disse:
— Essas pérolas não se compram, se criam...
Parei o garfo com creme de espinafre no ar e pensei:
— Bem, será que vou ter que criar ostras com pérolas?!
Então o Amor tirou uma bolinha dourada, do tamanho de uma pequena bola de gude, que instantaneamente se abriu como uma flor e, de dentro, pulou um pergaminhozinho, do qual ele leu a frase:
— Minha amada, seus olhos são como o azul do mar, e nesse mar quero nadar para sempre...
Aí minha amada segurou forte minha mão direita e sorriu...
O Amor então disse, olhando para mim:
— Agora, meu amigo, é a sua vez. Estou faminto...
— Por que eu? E não ela? — eu disse num repente...
Aí o Amor disse:
— Você quer aqui um matriarcado?
Eu retruquei:
— Não, não... Eu prefiro um... um "biarcado"... um "compartilharcado"...
Aí ele — o Amor — riu à beça, mas depois disse bem rápido:
— Vai logo, rapaz! Diga sua pérola do amor e mate minha fome!
Eu olhei para o lado, pus uma garfada de creme de espinafre na boca e engoli tudo de uma vez só. Então declarei altissonante:
— Se eu fosse cego, pediria ao bom Deus olhos só para te ver... Se eu não tivesse esta minha boca, pediria uma boca maravilhosa só para te beijar e, se não tivesse braços, pediria dois deles só para te abraçar sempre, sempre...
Ele — o Amor — fez um gesto circular no ar com a mão direita e levou a mão à boca aberta, que fechou e abriu novamente, dizendo:
— Agora sim saciei minha fome. Acho que virei até aqui com vocês jantar várias vezes...
Eu disse imediatamente:
— Já vou começar a obter pérolas do amor...
O Amor retrucou:
— Vai criar ostras?
Eu disse:
— Não! Vou amar esta aqui.
Disse eu, abraçando minha amada, que, sorrindo, trouxe o Amor para junto de nós num abraço a três...
E, como dizia o inesquecível Charles Chaplin:
— O abraço é o melhor lugar do mundo.
Pai Poeta de Brasília (Renan Lins)
Maio de 2026 – Brasília
O CÉREBRO
Ele pensou que estava meio maluco...
— Não é possível! — exclamou em bom e alto som.
— Não está acontecendo comigo!
Desceu do segundo andar da casa, entrou na copa e viu seu pai na cabeceira da mesa retangular.
"O que estou vendo?", pensou. "Não é possível. Não usei remédios nem drogas..."
Ele via seu pai sentado, mas sem corpo: apenas o cérebro e uma pequena boca ligada a ele por uma névoa, parecendo a cauda de um cometa. Não havia rosto, face, olhos nem orelhas — só boca e cérebro.
Sentou-se no lado oposto da mesa e serviu-se de café com torradas.
O pai movia o cérebro de um lado para outro, como se gesticulasse e dissesse coisas muito realistas, mas ele não conseguia captar nada... nada...
E o cérebro parecia hesitante, talvez achando que ele não estava entendendo, ou que não tivesse dormido bem, talvez tivesse fumado alguma coisa...
Mas uma voz interior falava:
— Agora você vai poder conhecer as verdadeiras pessoas, convivendo apenas com seus cérebros puros e com aquilo que suas ideias dizem sem a interferência do corpo...
Esqueça o corpo, o cabelo, o rosto e tudo o que desvia sua avaliação do que é o verdadeiro ser humano!
Seja lá o que for isso...
"O que vou fazer com cérebros verdadeiros e puros? Onde vou abraçar, beijar, cumprimentar e falar baixinho ao ouvido?"
O cérebro do pai se ergueu e se deslocou para fora da copa. Uma fumaça saía do canto da boquinha.
— Eu já pedi para ele parar de fumar!
O despertador tocou ruidoso e estridente, vindo do relógio de bola na cabeceira.
Ele estava molhado de suor. O CPAP para apneia do sono não fora usado naquela noite.
Percebeu que tudo não passara de um pesadelo e jurou a si mesmo que nunca mais deixaria de usar a máquina capaz de evitar aqueles terrores noturnos.
Pai Poeta de Brasília
Junho de 2026
ODE AOS DENTISTAS
Quando a dor pulsa mais alto. Quando a mão `a bochecha vai de
forma automática. Quando acelera o coração e, o medo é menor
que a dor. Aí sim , sentamos na sua cadeira mágica , onde com
paciência , às vezes inesgotável e amabilidade extraterrestre - nos
afirma que uma leve picada vai nos transportar para o seio da
anestesia salvadora.
A ciência e as mãos hábeis de vocês dentistas, elevam a saúde bucal a
níveis super-humanos - seja na dor aguda ou na prevenção para um belo
sorriso. A vocês diligentes dentistas de todo este vasto mundo - agora
uma singela homenagem: nossos sorrisos te agradecem!

